Reflexões

O que uma fotografia guarda quando o tempo passa: presença, detalhe e amor em cada imagem

· 3 min de leitura · por Júlia Bettanin

O que uma fotografia guarda quando o tempo passa: presença, detalhe e amor em cada imagem

O que uma fotografia guarda quando o tempo passa


Existe um instante, em quase todo ensaio de recém-nascido, em que o estúdio inteiro silencia. O bebê adormece no colo da mãe, a luz da tarde atravessa a cortina e pousa devagar sobre os dois, e eu abaixo a câmera por um segundo. Só para ver. Só para estar ali.

Aprendi que esse segundo sem câmera é o mais importante do meu trabalho.

Porque fotografar não é apertar um botão. É perceber. É notar a dobrinha no pulso que daqui a três meses não existirá mais. O jeito que os dedos da mãe circundam o pé pequeno, como quem confere se aquilo tudo é real. A veia azul e delicada na pálpebra fechada. O buço de suor na testa de quem acabou de mamar. São detalhes que o cotidiano engole. A fotografia os devolve.


O tempo não para. Mas ele aceita ficar em uma foto.


Sou mãe de dois. Sei, na pele e na memória, como os dias com filhos pequenos são longos e os anos são curtos. Sei que a gente jura que nunca vai esquecer o cheiro daquela cabecinha, e esquece. Que o choro que hoje atravessa a madrugada um dia vai fazer falta, por mais absurdo que isso pareça às três da manhã.

O zen ensina que só existe este momento. Que o passado é memória e o futuro é imaginação, e que a vida acontece exatamente aqui, neste respiro. Eu acredito nisso. E, ainda assim, escolhi um ofício que parece contradizer esse ensinamento: eu guardo momentos.

Mas com o tempo entendi que não há contradição nenhuma. A fotografia verdadeira não é uma tentativa de segurar o tempo. É uma reverência a ele. Quando fotografo uma gestante com as mãos sobre a barriga, olhos fechados, banhada pela luz do fim da tarde, eu não estou impedindo aquele momento de passar. Estou dizendo a ele: eu vi você. Você importou.

Uma foto é isso: a prova de que alguém esteve presente o suficiente para ver.


A beleza não está na pose. Está no intervalo entre as poses.


As fotos mais amadas que já entreguei quase nunca foram as planejadas. Foram o riso que escapou quando o bebê espirrou. A lágrima que a mãe não segurou e nem tentou. O pai que beijou a barriga sem que ninguém pedisse. O irmão mais velho que se aproximou desconfiado e, de repente, encostou a testa na testa do recém-chegado.

A beleza mora no intervalo. No não ensaiado. No humano.

Por isso, quando uma gestante me pergunta, insegura, se vai "sair bem nas fotos", eu respondo sempre a mesma coisa: você não precisa sair bem. Você precisa estar. O resto é comigo. Meu trabalho é criar um espaço tão seguro, tão sem pressa, que a beleza que já existe em você tenha coragem de aparecer.

E ela sempre aparece. Em mais de uma década olhando através de uma lente, nunca conheci uma mulher que não fosse bonita quando esquecia que estava sendo fotografada.


O que suas filhas e seus filhos vão encontrar nessas fotos


Penso muito nisso: as fotos que faço hoje não são apenas para as mães de agora. São para os filhos de depois.

Um dia, essa criança que hoje cabe em dois palmos vai abrir uma caixa, ou um arquivo, e vai encontrar a própria origem. Vai ver a mãe grávida dela, jovem, cheia de medo e de esperança. Vai ver o próprio rosto amassado de recém-nascido. Vai ver que foi esperada. Que foi celebrada. Que houve uma tarde inteira dedicada só a registrar que ela havia chegado ao mundo.

Poucas heranças dizem "você foi amado" com tanta clareza.


Presença é o único equipamento que não se compra


Me perguntam com frequência qual câmera eu uso, qual lente, qual luz. Respondo com carinho, porque a técnica importa e eu a estudo todos os dias. Mas a verdade inteira é outra: o equipamento mais importante de uma fotógrafa é a presença.

É chegar no estúdio e não ter pressa. É perceber quando a mãe precisa de um copo d'água, de um silêncio ou de uma palavra. É saber esperar o bebê no tempo do bebê. É olhar nos olhos antes de olhar pelo visor.

Presença é empatia em estado prático. E a fotografia, quando nasce daí, deixa de ser imagem e vira sentimento com moldura.


Um convite


Se você está gestante, ou com um recém-nascido nos braços, e sente que os dias estão escorrendo depressa demais, este texto é um convite. Não necessariamente para um ensaio, mas para um gesto: hoje, escolha um detalhe. A mãozinha fechada no seu dedo. A luz na janela do quarto. O peso morno no seu peito. Olhe de verdade. Fique ali um segundo a mais.

E se quiser, fotografe. Com o celular, com o coração, comigo. Não importa tanto o como. Importa o ato de dizer ao momento: eu vi você. Você importou.

Porque o tempo passa. Ele sempre passa.

Mas o amor, quando alguém teve a delicadeza de olhar para ele com atenção, encontra um jeito de ficar.


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Se este texto tocou você, compartilhe com uma mãe que precisa lembrar de olhar para os próprios dias com mais ternura.

Vamos registrar esse momento?

As datas de cada mês são limitadas. Me conte em que semana você está e eu verifico a agenda.